sábado, 20 de julho de 2013

Depois

Até a casa parecia ter se tornado mais amistosa. Era como se ela recebesse o trio com alegria, como se suas entranhas se regozijassem com o fato de abrigar três almas do tamanho do mundo. Subiram as escadas sorrindo de si mesmos, de como tudo tinha se engendrado até ali, de como todo um universo tinha conspirado para que eles se reencontrassem.
No andar de cima, no último quarto a direita no corredor, estava o refúgio ainda improvisado de Christopher. Ele se adiantou, abriu a porta, esperou que Emilie e Konstantine entrassem e acompanhou-as de perto. Um sorriso matreiro dançava em seus lábios, mesmo que aquele fosse um momento que exigia certa sobriedade e quem sabe até uma tristeza oportuna.
Mesmo que aquele fosse um simulacro, deveria ser tratado com a mais certa constatação de que era um fim.
Ambas entraram compartilhando do mesmo sentimento que misturava alegria e catarse.
- Por favor, Christopher! – disse Konstantine quebrando o silêncio – Amanhã vamos dar um jeito nesse muquifo. Vamos comprar uma cama para você e umas cortinas e poltronas e carpetes. Essa casa anda muito vazia!
- Concordo plenamente, Konst – disse Emilie enquanto sorria junto de Christopher.
- Vamos, vamos sim. Quero também aproveitar e dar uma passada no armazém e naqueles quiosques aqui perto. Também preciso comprar algumas sementes e bulbos, se eu encontrar. Andei tendo umas ideias!
- Ai, ai. Você e todas essas plantas que só você sabe o nome. Ainda me pergunto como é que você consegue, sério... – fungou Konstantine.
- Herança do meu pai, tu bem sabe!
- É, ainda sustento o fato de queria ter conhecido ele. De verdade, deve ter sido um homem muito peculiar.
O trio sentou-se no colchão surrado a fim de mexer em suas bagagens. Emilie e Konstantine trouxeram suas malas do hotel e agora as esvaziavam e espalhavam o estofo de cada uma de forma que ficasse organizado em pequenas pilhas. Cada um analisou, ponderou, rememorou o significado daquilo que tinham escolhido para levar consigo quando voltassem ao quintal.
Tendo selecionado o que de fato contava muitas coisas sobre eles, rumaram para o andar de baixo mais uma vez em marcha silenciosa.
Em breves minutos estavam novamente embaixo do ipê, descalços, sentindo a grama molhada e a brisa que soprava dançando entre eles.
- Pois bem. Acho que eu vou primeiro, meninas.
Ambas apenas deram de ombros, concordando sem se importar com a ordem que dariam para os sepultamentos.
Christopher trazia entre os braços cruzados um caderno simples, encouraçado em tom marrom, um tanto surrado nas bordas e que exalava um cheiro forte de alfazema. Konstantine não conseguiu evitar a surpresa ao ver que o amigo iria mandar para o túmulo um de seus diários mais expressivos. Ela mesma relera diversas vezes, tomara a liberdade de comentar em algumas páginas. Aquele caderno pertencera tanto a ela quanto a ele. Baixou a guarda, conteve-se para que não mandasse Christopher subir e escolher outra coisa, que ela mesma ficaria com aquele diário. Não negou o alívio ao ver ele depositar o volume em uma sacola de couro, visivelmente bem costurada. Na penumbra viu, segundos antes de o caderno sumir dentro do pacote, alguns números cintilarem em tons prateados na base da capa frontal: “2007~2008”. Releu lentamente como se consumasse um ritual que sempre fez todas as vezes em que teve aqueles escritos em sua mão. Emilie sequer alterou sua expressão. Ela mesma nunca teve grande apego a diários, agendas ou cadernetas. Quando finalizava um costumava arrancar todas as páginas e distribuir as que mais gostava entre alguns amigos especiais. O resto conhecia o fogo logo em seguida.
O rapaz abaixou-se, colocou o pacote no centro da cova e apenas disse:
- Se é possível enterrar uma ruptura, estou fazendo isso agora.
A terra molhada pululou sobre o couro, gradativamente abafando os sons e se tornando fofa à medida que ocupava todo o espaço da cova aberta.
Emilie se aproximou silenciosa, tirou do bolso algo que cintilava entre os seus dedos. Era um camafeu de aparência antiga. Do outro bolso tirou uma pedra pequena que colocou dentro do colar. Com um esforço mínimo forçou as dobradiças delicadas do adorno; o trio ouviu um tilintar quase inaudível, mas suficientemente alto para saber que algo havia se quebrado. Tirou a pedra de dentro do camafeu e colocou-a novamente em seu bolso. Segurou a corrente do colar e soltou-o, de modo que o mesmo afundou alguns centímetros na terra escura. Depois de enterrado, pisou sobre o túmulo e disse:
- Enfim, está morta.
Konstantine sacou do bolso um envelope pardo, mediano. Abriu, tirou de lá uma folha de papel cheia de floreios e preenchida por uma letra miúda, que ela sempre achou que fosse enfeitiçada. Deu uma última olhada e abaixando-se, depositou o papel aberto no meio da cova. Quando este tocou o chão, a terra úmida borrou algumas palavras, fazendo com que a carta amolecesse, como se realmente morresse. Christopher reconheceu imediatamente. Aquela era a sua letra, e o perfume que se misturava com o de terra molhada, era o seu. O perfume que usava há sete anos. Era a primeira carta que escrevera para Konstantine. Sorriu levemente para a amiga, que lhe retribuiu com lágrimas que pareciam flutuar nos seus olhos morenos.
- Eu repetiria tudo, com os mesmos erros, mas hoje... Hoje não. – disse ela compactando a terra da superfície do túmulo com os pés.
Quando as três covas enfim foram fechadas, uma súbita rajada de vento desprendeu gotas pesadas das folhas do frondoso ipê acima deles. As gotas caíram sobre a terra recém revolvida, em tons ocos.
- Acho que terminamos, não é? – constatou Christopher.
- Creio que sim. – disse Emilie, ainda distante.
- Será que estes mortos irão nos assombrar? – questionou Konstantine, mais para o céu e para o vento do que para os dois amigos que ali estavam.
- É claro que sim. Enterrar nunca foi sinônimo de esquecer. Mas, querendo ou não é um ultimato, não é?
A retórica de Christopher pairou no ar por alguns instantes. Ele estendeu ambas as mãos para as moças que de forma terna as seguraram. Caminharam lentamente pelo gramado, voltando para a porta que levava ao quintal.
Naqueles minutos que gastavam para chegar até a casa, subir as escadas e ir ao quarto, ocorreram milhares de coisas que pareciam fluir diretamente da mente de um para o outro.
Pensavam que sim, sabiam que lá no fundo havia tanta beleza no mundo que eles só queriam enxergá-la. Pensaram nas tardes de domingo; nos dias que sorriam; qualquer que fosse o motivo que deixasse o peito em fogo e justificaria uma vida ao menos morna.
O mundo poderia acabar naquele instante, mas os três estariam entregues àquela dança que o destino lhes tinha ensinado.
Christopher pensou naquela noite, numa data que já nem lembrava, a primeira vez que olhou Konstantine de perto. Nunca esqueceria a graça daquela menina. Assim como nunca se esqueceria do dia em que quebrara anos de gelo e singrara as águas da ilha que Emilie representava. Para sempre seria uma vitória pessoal, com o mais valoroso prêmio para ele: a amizade daquela moça tão importante. “Eu de saias”, ele pensou, rindo-se.
Konstantine então entendeu que era por isso que todos eles se entregaram àquele imediatismo cego. Ela, um dia tão sonhadora, certo dia passou a namorar o agora. Desacreditou-se do depois, mas lhe ocorria naquele momento que se o fim fosse aquele, que fossem só eles três. Eles naquele lugar que ela chamava de “fora”. Fora do medo, fora da dúvida, dentro da paz, sinônimo de respostas. Ela estaria preparada para o fim.
Emilie apenas aquiesceu seu coração. De verdade, aquele fora um fim, e por ela, por eles, dançaria aquela valsa que emanava de tudo, que respondia tudo e calava até a mais atroz das desconfianças.
Quando adentraram o quarto, ela olhou para Christopher e Konstantine e respondeu a pergunta que eles discretamente tentavam esconder no olhar, sem muito sucesso.
- No camafeu era uma foto minha – sentenciou ela.
Christopher sorriu levemente. Olhou pela janela, viu o céu que lentamente vestia-se de um negro profundo. “Amanhã não choverá”, pensou.

Uma brisa morna entrou pela janela fazendo cócegas no nariz de Konstantine. Levantou-se mansamente e viu o sol vívido que se estendia sobre tudo. Raramente gostava de dias ensolarados, mas aquele estava excepcionalmente bonito. Tratou de acordar os outros, tomariam café ali perto, com aquele bom chocolate quente. Arrumados, saíram rumo aos quiosques que vendiam todo tipo de alimentos e quinquilharias. Christopher sempre foi um verdadeiro rato de sebos, brechós, bazares e feiras de plantas. Enquanto criança seu pai costumava lhe comprar brinquedos antigos, desses que nenhuma outra criança tem. Foi assim que cresceu alheio a vídeo games e coisas do gênero. Sua família poderia não ter dinheiro para aquilo, mas seu pai tratava de burlar as dificuldades adensadas pelo vício que um dia lhe tiraria a vida.
- Bom, chegamos! – disse Christopher olhando as barracas circulares. – Você vai começar por onde, Konst?
- Ah, vou procurar pelas roupas de cama!
- E eu pelos carpetes – acrescentou Emilie.
- Ok, vou ver se encontro uma cama boa, em bom estado e claro, barata. Mãos a obra!
- Calma Christopher, antes vamos ali naquele livreiro.
Caminharam rapidamente a uma banca repleta de livros, revistas e jornais exóticos, que pareciam noticiar coisas totalmente alheias ao mundo.
- Tudo jornal de margem! – comentou Konstantine.
Por alguns segundos a moça de melenas arroxeadas sumiu por entre os calhamaços ordenados de forma distinta. Pagou algo e veio com a pequena sacola.
- Aqui, toma – disse ela entregando o pacote na mão de Christopher. – Vai anotando os preços.
- Que bonita, Konst! Obrigado! – sorriu ele segurando uma pequena caderneta de couro com miolo de pergaminho costurado.
E foram cada um para um lado. Christopher adorava o clima de lugares como aquele. As músicas diferentes a cada quiosque, os cheiros de quitutes sendo preparados aqui e ali, o vozerio alegre e disposto a conversar, quiçá pechinchar.
Mas foi caminhando que ouviu, acima de toda aquela agradável baderna, uma melodia muito cálida tocada ao piano. Percebeu que o som vinha de uma loja de instrumentos musicais, um tanto antiga, sem tradição, mas amistosa e convidativa. Entrou, desejou bom dia à mulher atarracada que estava no balcão. Ela perguntou ao jovem se podia ajudar em algo, ele apenas perguntou se podia ouvir a música e ver quem tocava. Ela sorriu e apontou um pequeno corredor que levava a uma sala com vários pianos dispostos.
Christopher se sentou silenciosamente, deixando que as notas musicais chegassem a ele e dissessem tudo o que queriam dizer. Tentou distinguir a melodia, mas enfim percebeu que não conhecia aquela música.
Um rapaz não muito mais velho que ele, mas mais alto e de feições mais maduras, tocava no piano bem ao centro. Ele tocou algumas notas a mais e concluiu o trabalho. “Deve ter vindo afinar os pianos”, pensou Christopher. O jovem pianista se levantou com muita galhardia, parecia flutuar. Seus olhos verdes eram emoldurados por um discreto óculos, barba densa, mas bem aparada. Era sério. Magriço, mas não mais que Christopher. Saiu pela porta lateral sem ver o rapaz que o observou tirar aquelas notas que de algum jeito tinham um tom saudoso. Esperou que o músico sumisse de suas vistas, levantou-se e foi até a partitura ainda aberta. Numa olhada rápida, percebeu que aquela pasta não pertencia à loja. Esperou um pouco no intuito de que o rapaz voltasse; assim lhe entregaria a pasta, mas no mesmo instante pensou no quanto aquilo seria bobo. Ele nem o conhecia e ainda assim estava numa loja, seria no mínimo educado que alguém responsável pelo estabelecimento guardasse aquelas partituras e devolvessem a ele quando voltasse.
Mas a curiosidade era maior. Marcou a partitura para que esta não se perdesse em meio às outras, procurou por algum nome na pasta, até que encontrou uma anotação em letras corridas, que pareciam ter pressa. Dizia:


“Appartiene a Felipe Rossetti”

“Tem nome de carbonário”, pensou Christopher. Abriu a caderneta e transcreveu o nome na primeira página. Voltando à página da partitura, tentou ler com um italiano que nunca fez parte de qualquer estudo linguístico seu: “Adios Nonino – Piazzolla”.
Levou a pasta aberta até a recepção. Explicou para a moça que o pianista a havia esquecido. Ela apenas disse, dando de ombros:
- Ah, é o Felipe. Ele vem aqui todos os dias. Quando não toca por pelo menos uma hora, arranja de afinar os pianos. Foi um presente para nós, aquele rapaz. Ninguém mais quer saber dos elefantes brancos que são esses pianos de cauda...
- Eu imagino – disse Christopher simulando atenção. – Mas, muito obrigado, eu pretendo voltar, certo?
- Ah, certo! E olhe, se quiser aprender piano aqui damos aulas.
- Eu acho lindo, de verdade, mas tenho mãos pequenas e paixão por violoncelo.
- Bem, mãos pequenas são mais ágeis, lhe garanto!
- Acreditarei em você.

Quando se reencontraram traziam consigo muitos embrulhos e sacolas.
- Christopher, nós deveríamos ter vindo com o Oldsmobile – disse Konstantine um tanto esbaforida.
- Vocês me esperam aqui? Não é muito longe de casa e eu também preciso levar a cama que está desmontada e embalada ali na loja.
- Ah, sim. Vai lá, te esperamos aqui.
Ela e Emilie sentaram-se num quiosque próximo enquanto degustavam algo refrescante. Christopher voltou alguns minutos depois, ajudou-as a acomodarem as sacolas no porta malas. Voltaria depois para buscar a cama bonita e em bronze que encontrara por preço muito agradável ao bolso. Quando puseram-se a caminho, Konstantine perguntou:
- Eu estava conversando com Emilie, Christopher, e há algo que ainda não entendemos.
- Diga...
- As lápides. Como elas chegaram ali? E a data do sepultamento? Você esteve o tempo inteiro conosco e com Thompson.
- Ah, tudo foi organizado por Deliverance. Quando visitamos o Thurston Moore ela encomendou as lápides; agora, com relação à data do sepultamento, não me perguntem. Isso é algo que veio totalmente dela.
- Eu imagino a cara dos funcionários quando vieram entregar as lápides e ainda as instalarem no fundo de um quintal. Isso é tão medieval, gente!
E todos riram muito. Recordaram de forma breve da magia que emanava de cada gesto de Deliverance. Com toda a certeza haveria nela mistérios que jamais seriam desvendados.

Pouco depois de chegarem a casa, trataram de desempacotar tudo. Christopher se ocupou de montar a cama, o que não levou muito tempo e permitiu que ele ajudasse suas amigas com os restante dos afazeres.
Quando preparou-se para descer, parou por alguns instantes no topo da escada para admirar a sala que agora ganhava mais vida. Emilie havia comprado um carpete simples, mas de muito bom gosto. Era suficientemente grande, com pelos aparados de forma a deixa-los confortáveis. A sua cor vinho casava com as almofadas que Deliverance lhe tinha presenteado. Agora só faltava um piano, violão e mais amigos. Foi quando a campainha soou por toda a casa e o tirou das análises decorativas. Konstantine adiantou-se e abriu o portão, acompanhando Deliverance para dentro de casa.
- Está uma prenda de bonito! – disse ela ao ver o carpete estendido sobre o chão de linóleo. – Christopher, - continuou – eu recebi uma ligação de seu interesse.
- E quem era? – perguntou ele um tanto curioso.
- Gregory quer falar com você. Pediu para encontrá-lo daqui à uma hora na Praça VIII.
- Ah, tudo bem, mas você me ensina onde é?
- Claro, é muito fácil.
Christopher não esperava um novo encontro com o investigador em tão breve tempo, mas pensou que deveria ser algo importante. Trocou de roupa e foi para a praça indicada, longe dali apenas quatro ruas. Antes de sair, lembrou-se:
- Preciso comprar um telefone para cá e também um colchão para mim! – falou em alto e bom som.
De pontos distintos da casa, ambas concordaram, rindo-se dos esquecimentos cômicos do amigo.

Gregory Thompson não tardou a chegar. Sentou-se ao lado de Christopher e ficou por alguns minutos admirando o farfalhar que o vento quente daquele começo de tarde produzia ao dançar pelas árvores.
- Eu estou feliz por você, Christopher – começou ele.
- Eu agradeço Gregory, mas quero muito que você encontre a sua paz.
- Isso já não é mais direito meu.
- Bom, eu ainda acho um equívoco pensar dessa forma, mas cada um pode com o que constrói para si, não é? – disse Christopher olhando nos olhos do investigador.
- É que agora sinto que não há nada, meu rapaz. Fiz tudo o que eu podia, tudo o que estava ao meu alcance.
- E isso é admirável, tenha certeza.
- Agora eu acho que você já pode começar a sonhar novamente – disse Gregory, um tanto reticente.
- Eu nunca esqueci como é isso. Só estava dormente... – sentenciou Christopher.
- É, um rapaz como você gosta de sonhar grande. Aposto que já tem todo um futuro traçado a partir daquela casa.
- Certamente – confirmou Christopher curioso pela observação que Gregory começava a construir.
- Você chega a ser perigoso, Christopher.
- Como assim?
- Sua determinação, sua aura de sonho constante, isso sempre atrairá gente disposta a ir com você.
- Gregory... Você está mesmo insinuando o que estou pensando?
- Acalme-se meu caro, eu me expressei mal... – adiantou-se o investigador bastante desconcertado. – Eu só espero que daqui por diante você saiba exatamente aonde vai chegar. A solidão, o desgosto pela vida, todos os sacrifícios que lhe serão impostos justamente por ser um sonhador.
- Eu não me importo.
- Eu também não me importei, e olhe só para mim...
- O que eu vejo é apenas o que você se deixou ser, Thompson. Não há nada aí que tenha resultado naturalmente. Você mesmo talhou em si um estigma de pertença. Foi esse estigma que afogou Judith, o mesmo estigma que sumiu com o corpo de Sophie.
E então Gregory Thompson se rendeu. Levantou-se rapidamente, olhou mais uma vez nos olhos de noite sem lua de Christopher e lhe disse:
- Agradeça por ser diferente de mim.
- São essas diferenças que fazem o mundo andar – concluiu Christopher.
Abrindo um parêntese naquele diálogo inevitável, Gregory lembrou-se:
- A propósito, tratei de sumir com seu nome do processo de Sophie. Voltei a ser o homem perseguido pela tragédia, tendo perdido mulher e filha do mesmo jeito, no mesmo lugar. Percebi que tudo tinha voltado ao normal quando os cochichos no departamento voltaram a sibilar enquanto eu transitava pelos corredores. Para eles não há nada mais cruel do que perder dois entes queridos da mesma forma, sem poder estar lá para ajudar.
De alguma forma Christopher achou o homem a sua frente um pouco sádico, mas entendeu que mais uma vez ele usava aquela máscara de seu ofício. A mesma máscara que usava ao chegar ao Thurston Moore, dias atrás. Estendeu a mão a ele e disse:
- Ainda assim, obrigado por tudo, meu caro. – disse ele estendendo a mão a Gregory. – Quando lhe vejo novamente?
- Não creio que nosso destino é o reencontro – respondeu o homem lhe retribuindo o aperto de mão.
Com olhos tristes e ar acabrunhado, ele afastou-se sem olhar para trás.
Christopher Owens nunca mais ouviria falar de Gregory Thompson, a não ser pelo benefício que todos os meses era depositado na conta corrente de Deliverance. Alguns anos depois, quando até isso findou, a primeira coisa que ele, Emilie e Konstantine pensaram foi que sua morte enfim teria chegado. Para sempre aqueles olhos tristes estariam em suas memórias.

Quando Christopher voltou, apenas subiu os degraus lentamente. Emilie e Konstantine nada perguntaram. Se ele quisesse contar, de uma forma ou de outra mais tarde saberiam.
Remoeu as palavras de Thompson por longos minutos, mas deixou que aquilo se esvaísse para ser guardado em algum lugar de sua memória. Quando se levantou da cama, derrubou sua caderneta encouraçada. Esta se abriu e ele pôde reler:


“Felipe Rossetti”

De súbito, lembrou-se da auteridade daqueles olhos pacientes e esmeraldinos.
Quem seria aquele rapaz que de um jeito muito sutil e breve tinha inserido mais musicalidade em sua vida?

Continua...

Ao som de “Dançando”, Agridoce.

2 pessoas se inspiraram:

Emilly McRose disse...

Sou apaixonada pelos seus escritos. Essa historia especialmente me fascina! Amo :D

rebeca Holanda disse...

Amanda seu blog... por favor continue postando. Não dá nem pra acreditar que você mora na minha cidade *-*